quarta-feira, 23 de julho de 2008

O ABRAÇO


Com a feição serena e suave,ela desce ,sem pressa, as escadas do avião.

Entre o percurso da saída e seu destino final, parece sentir cada degrau, como de fosse o primeiro, o único e o último.Parece saborear o gosto da descida como se prolongasse um gozo.

O que se passa em sua cabeça, neste momento?

As lembranças do que jamais será esquecido?

O que ainda há para se realizar?

Ou em cada movimento, apenas sentir a presença do ar entrando e saindo, o coração batendo, a vida pulsando?.

O sabor de se sentir livre, sem algemas?

Ou Nada?

Qual será a sensação de descer cada degrau?

Um pouco mais perto do sonho ou mais distante da prisão?

À sua espera, ao final da escada, uma outra personagem da mesma estória.,. Ela, que não sei o nome, mas que poderia se chamar Esperança, espera também sem pressa, os segundos finais para o reencontro.

Finalmente se abraçam, um abraço difícil de ser traduzidos em palavras, e através delas também me abracei, abracei meus pais que já se foram, os amigos distantes, um grande amor........ Matei a saudade até de quem não encontrei nessa vida. Um abraço compartilhado, coletivo, globalizado.

Depois do abraço, os olhares se tocam e se dizem o que palavra alguma consegue dizer.

E Ingrid Betancourt, traduz aquele precioso momento, talvez para quem as observa de longe, perguntando á mãe:

Isso é o Nirvana ?

Marcia Cristina Rodrigues

terça-feira, 22 de julho de 2008

Minuto da Imaginação x Minuto da Decepção

Meu coração estava saindo pela boca de ansiedade e expectativa, ouvindo aqueles nomes que não eram o meu, quando educadamente a atendente do sac da Omo, me informou: Senhora, infelizmente seu nome não está na lista dos finalistas do concurso “ Minuto da Imaginação”.

Enquanto por dentro eu gritava :COMO ASSIM NÂO ESTOU NA FINAL? , minha boca sussurava para a atendente: Ah! Que pena..... e desliguei.

Andei pela casa que nem barata tonta, tentando digerir a frustração.

Em um minuto , conhecer Ana Maria Braga e o louro José foi pelas cucuias.

Quase paralisada por aquele soco no meu ego, fiquei a olhar o vazio e sentindo novamente a sensação de quando não passei no vestibular. Depois de um tempo, veio a decisão dramática:Não escrevo mais ! Fazia parte do meu processo de recuperação, me punir, chicoteando minha criação.

Finalmente, quando a ficha dos meus sonhos globais, cairam por terra, me restou ir para a cozinha e lavar a louça adiada e acumulada, por causa do bendito concurso.E lavando a louça, lavei a decepção de não ter sido “escolhida”.

Me lembrei da minha mãe, querendo ganhar em sorteios de embalagens de margarina.

Me vinguei mentalmente da Omo, porque a bem da verdade eu uso Ariel.

E comecei a rir de mim mesma, pensando tanta bobagem para diminuir a frustração.

Meu novo desafio? Ganhar uma cozinha completa,no concurso : Um Brilho em sua Vida. Fiquei viciada!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O Coliseu é Aqui !

Um incômodo se instalou hoje em mim, pela manhã, vendo o noticiário na tv.

Novamente aquele incômodo, que não conseguia nomear.

Tenho a mania de ficar remoendo sensações desconhecidas. Sei que depois de um tempo elas tomam forma, ganham nome, sobrenome e até idade.

Vendo aquela multidão á porta dos indiciados pelo crime da menina Isabela me assustei novamente.Gritavam : Assassinos e pediam Justiça.

Derrepente a imagem do Coliseu, na antiga Roma me veio á mente.Sensação de dejá-vu. Mas tanto tempo passou desde então.......

Será que a humanidade pouco mudou de lá para cá?

Será que os ensinamentos do Mestre dos mestres, não alcançou ainda nossos corações?

Será que aquelas palavras também foram mortas e portanto esquecidas?

“ Quem nunca cometeu um pecado que atire a primeira pedra”...

Àquela época o povo se dispersou, remetidos que foram á si mesmos. Hoje, o povo ,esquecidos de si mesmos, atiram pedras!

Neste momento, a reação humana desencadeada pela tragédia, me assusta tanto quanto o crime cometido.

Quem acredita, o mínimo que seja, numa realidade espiritual, sabe que a vítima, embora ainda criança nesta vida, talvez (talvez) tenha tido a oportunidade de quitar uma enorme promissória espiritual.

Mas ....e eu que aqui permaneço?Aprendo o que sobre mim mesma com esse espelho escancarado á minha frente?

Que como mãe sou falível, muitas vezes não amorosa e outras tantas que nem me dou conta, de certo agressiva com quem tanto digo amar.

Eu confesso: Já priorizei a cebola do almoço á segurança da minha filha, indo no mercado ali na esquina, e deixando ela dormindo de porta semi aberta, com a paranóia de quem sabe um incêndio.Já me tranquei no banheiro em dias de tpm, para não correr o risco de errar o peso da mão, num momento de birra.

A pior condenação é a que chega pelas mãos da própria consciência.

È assustador saber que tenho dentro de mim um juiz rigoroso, mas também falível,tanto quanto um algoz brutal.

Meu incômodo agora tem nome: um Extremo Pesar.

Por mim mesma! .Por nós!

Olho para o pai e a “madrasta”, inocentes ou culpados, e só consigo me sentir solidária com seu Calvário.

Marcia Cristina Rodrigues.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Na Contramão da Rotina

Às vezes a vida nos convida a andar na contramão de nossas rotinas.

Comigo, o convite foi feito na cadeira da dentista, ouvindo uma conversa em que outro paciente do outro lado do fio do telefone insistia em ser atendida em uma quinta – feira.E ela, minha dentista,enfática e com aquele tom a mais de nordestina arretada, dizia: Esse dia para mim é Sagrado, jogo frescobol com as minhas amigas, e se chover é dia de buraco!.Se for muito urgente, te encaminho para uma emergência.

Quanta coragem !, pensei com meus botões.Dizer para alguém que talvez esteja, agonizando com dor de dente, que não poderá atender naquele dia , pois aquele é seu dia sagrado na semana.Ela não iria rezar, nem levar um filho ao médico,nem tratar de alguma própria dor.O dia era sagrado, porque dedicado á ela mesma. Ia jogar frescobol!!!!!

Não fiz nenhum comentário,pois na verdade tinha mesmo bisbilhotado e colocado atenção na conversa alheia.Mas, dentro de mim a semente da discórdia e da rebeldia com meus deveres, obrigações e responsabilidades tinha sido plantada com aquela “escuta telefônica”.

Sai de lá, e em pouco tempo esqueci da tal semente, tragada que fui pelos afazeres.Até que.....acordei um dia bem no começo da semana, com aquela vontade de que fosse um sábado ou um domingo, para ter direito ao direito de não fazer nada.Mas, levantei, engatei a primeira e rapidamente coloquei o crachá de mãe , dona de casa, administradora da minha vida e fui fazendo o que era para fazer.

Como quase sempre, deixei minha filha na escola e derrepente aquela semente da conversa ouvida na dentista, começou a pulsar dentro de mim, como se já tivesse vida própria.Estava passando em frente ao cinema e eram tantos filmes que eu queria ver e que não tinha tempo! E o diabinho me perguntando qual o dia da semana que eu dedicava a mim mesma! Pensei, não custa nada ver os horários. Para aumentar o desespero do meu “conflito” interno, tinha um filme que começava dali á 15 minutos. Era uma da tarde e eu querendo vagabundear no cinema!Mas, a oportunidade de me rebelar contra mim mesma se apresentava tão sedutora!!!!!Olhei para os lados, quase paranóica, para me cerfiticar de que ninguém conhecido iria testemunhar aquela minha “fraqueza”, áquela transgressão. Comprei os ingressos com pressa, acho que para não ter tempo de voltar atrás , e entrei logo para não correr o risco de ser flagrada na malcriação.Sentei na poltrona ainda com o coração batendo de vergonha sei lá de quê ou quem, mas a euforia e o medo era de quando fazemos algo novo pela primeira vez. Depois fui me acalmando e em contraposição ao meu novo, observei como tinham idosos naquela sessão, em sua maioria mulheres. Em grupos, em pares ,sozinhas......Um delas, sem companhia sentou-se ao meu lado., e depois de alguns minutos me perguntou com um sorrizinho como se me conhecesse desde sempre,: È a primeira vez? E entendi que alguém tinha me pego fazendo arte, e eu rindo com uma risada de menina arteira e como se a conhecesse desde sempre respondi : È. E ela rindo ,que nem outra menina arteira,como se fosse outra fugitiva, como se fosse uma velha companheira de malcriação da rotina:a primeira vez, a gente entra no cinema com uma “culpinha”, mas depois toma gosto. Ela tem razão. È verdade, já tomei gosto!

Dá gosto dar uma “volta” na rotina. Tem gosto de infância !